Sustentável?

(Em busca do tempo perdido: este texto deveria ter sido publicado em novembro, adiado graças a minha falta de organização, que conduziu todo o meu tempo para o TCC).

Crescemos aprendendo que Portugal acabou com a mata atlântica. Que a culpa pelos problemas ambientais do Brasil é dos portugueses, que extraíram ao máximo as riquezas naturais e dizimaram nossas florestas. Sei que sou suspeita para falar a respeito, dada a minha relação próxima com os tugas, mas o pequeno aprendizado da faculdade e as observações do dia a dia me fazem crer em outra coisa.

Sim, os colonizadores extraíram grandes quantidades de pau-brasil e minérios preciosos, derrubaram florestas para construir cidades, mas não são eles que hoje, conhecendo o valor da floresta, continuam fazendo isto para criar gado de forma extensiva.

Não foram eles que fizeram ligações de esgoto diretamente para os rios. Não são eles que fazem isso ainda hoje, de forma clandestina, encaminhando seus dejetos para a rede pluvial e daí para os rios.

Não são os portugueses que ao invés de aplicar verbas em saneamento, na construção de estações de tratamento de água, esgoto, das redes dos mesmos, desviam estas verbas de forma corrupta. Também não são eles que elegem políticos por fazerem “pavimentação” (da que possua menor qualidade possível, para poder “lucrar” com a obra), que é obra visível, ao invés das necessárias e subterrâneas obras de saneamento.

Eles falam em sustentabilidade, e constroem, no país deles, ciclovias e ferrovias. Aqui, fala-se em sustentabilidade, e constroem-se cada vez mais autoestradas. Faz-se cada dia mais promoções de automóveis, o ápice da falta de eco: nomia e logia. Vê-se a mínima atitude de um prefeito em dar exclusividade aos ônibus em uma faixa da principal avenida da cidade, valorizando minimamente o transporte público, e esta atitude é recebida com uma enxurrada de reclamações. Uma que me queimou os olhos de tamanha estupidez foi vista numa rede social: (…) “estão querendo tirar nossa autonomia e liberdade de andar de carro”. Autonomia? Liberdade? Autonomia, para mim, é poder sair sem ter de me preocupar com combustível, impostos, lavagem de carro, estacionamento ou assaltos ao veículo, poder beber o que quiser, a hora que quiser, e voltar para casa num ônibus confortável e de preço justo. Liberdade é poder escolher se vou de metrô, mais rápido, de ônibus, para ver a cidade, ou de elétrico (bônus Lisboa), para ir com charme vintage.

É ridícula a dependência que temos dos automóveis. E lá vamos nós, seguindo de carro. Vamos não, nos arrastamos pelos congestionamentos. Mas o pior de tudo é levar “baforadas” de fumaça preta, e não poder fazer nada, mesmo com a legislação rígida contra as fontes móveis.

Culpa-se os outros, mas foi em Lisboa que voltei a sonhar em me especializar em Gestão de resíduos sólidos, e foi em Maceió que voltei a me desiludir, ao ver a falta de educação ambiental das pessoas: jogam lixo na rua, caminhando a 2m de uma lixeira; jogam pela janela dos carros (e isso não é falta de acesso à educação, é ignorância, pois normalmente são carros caros), na estrada, a beira de mangues e de rios. O caminhão da coleta de lixo retira uma montanha feita pela população no meio de uma praça, e a seguir os moradores começam a depositar as sacolinhas no mesmo local…

E no meio disto, encontro num livro de avaliação de impacto ambiental (Sànchez):

Alvará do rei Dom José, 1760: “(…) sou servido ordenar que, da publicação desta em diante, se não cortem as árvores dos mangues que não estiverem já descaídas, debaixo da pena de cinquenta mil réis, que será pago na cadeia, onde estarão os culpados por tempo de três meses, dobrando-se a condenações e o tempo de prisão pelas reincidências (…)”.

O autor afirma que os estudiosos da época chegaram a uma conclusão: “A regulação do acesso e do uso dos recursos naturais, dos quais o Brasil era rico, seria essencial para colocar o país no rumo do desenvolvimento”.

E ainda aqui estamos, quase 3 séculos depois.

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