Lampejos ecológicos

Flá Wonka, do Garotas que Dizem Ni.

Para minha infelicidade, não posso ter um Prius – aquele carro sem-graça que roda tanto com gasolina quanto com energia elétrica – porque não se vende isso no Brasil. Não tenho espaço aqui em casa para fazer um tanque de compostagem também, então o lixo orgânico vai pro lixo mesmo. Não consegui usar fraldas de pano na minha filha, foi na base das descartáveis. Controlo o uso da água; desligo as luzes todo o tempo; vou à pé; compro menos; reciclo. Mas tudo isso é ecologia de momento.

Se a gente quisesse mesmo causar menos impacto na Terra, teria que mudar de rumo por completo – talvez, seguindo as dicas de um livro que terminei de ler há pouco tempo. Chama-se “Manual Live Earth de Sobrevivência ao Aquecimento Global”. É uma quase-ficção.

Quem escreveu foi um maluquete inglês, aventureiro e criador de ONG ecológica, chamado David de Rothschild. No livro, David estabelece 77 táticas que podemos adotar para sermos mais amigos do planeta. O homem é um fanfarrão (porque algumas das atitudes são “construa um half pipe usando pneus velhos”, “faça um jardim no seu telhado” e “instale um moinho e capte sua energia”). Mas ele dá outras ótimas dicas para quem pretende ser menos poluente.

O duro é que ser menos poluente… é duro. Principalmente para aqueles com mais de 15 anos, que viveram em um mundo feliz com seu petróleo, onde ter carro era status e que achava normal lavar a calçada com mangueira. Mudar de atitude para causar menos danos à amada mãe terra é difícil para nós.

Até porque, ser ecológico ainda causa uma baita estranheza. No supermercado, por exemplo. Faz tempo que adotei uma sacola de pano para trazer as compras para casa. Como moro bem perto de duas quitandas e um mercado, prefiro comprar poucas coisas por vez – o uso é mais racional, faço mais exercício, gasto menos na ponta do lápis; afinal, não preciso de um estoque de latas de óleo ou pacotes de açúcar. Acontece que os mocinhos que empacotam não me entendem.

Sempre que os itens começam a dançar pela esteira, lá vão eles querer enfiar tudo em sacolinhas plásticas (sempre um item ou dois em cada saco, pra me enlouquecer de vez). São matreiros e agem na surdina – e, quando eu vejo, já enfiaram três produtos nas sacolas. Grito! Peço para parar! Aviso que tenho minha sacola de pano. Eles torcem o nariz e vão-se embora.

Em lojas, a mesma coisa: digo que posso levar a caixa na mão, que não preciso da sacola. Elas dizem “você tá querendo ser ecológica, né? Mas é sacola de papel!”. E daí, uai?! Primeiro, que a sacola de papel tem 80cm X 80 cm, um exagero de tamanho que serviria para carregar um bezerro dentro. Segundo que, para fazer aquilo, um baobá deve ter ido pro saco (literalmente). Terceiro e mais importante: nosso sistema de reciclagem é pífio, e então sacos de papel costumam ir para o aterro sanitário comum – o que faz seu tempo de decomposição ser igual ao do plástico: 1.000 anos.

Fica muito difícil ser “certinho”. Você escova os dentes com um copo d’água, mas passa na rua e vê um vazamento jogando milhões de litros dela fora. Você vai de ônibus, mas encara uma penúria de conforto. Você quer comer tomates orgânicos, mas eles custam o triplo daquele lotado de tóchico.

O negócio é acreditar que qualquer esforço vale a pena e ir em frente. E pensar que, mesmo qualquer lampejo ecológico pode colaborar para que nossos netos não precisem usar protetor solar fator 150.

Sacologica.jpg
Minha sacola é correta e maneira. E custou só uma
camiseta velha. Quer a receita? Apanhe uma camiseta
de malha comum. Peça para uma gentil operadora
de máquina de costura fechar a parte de baixo, da cintura.
Corte as mangas. Corte também a gola, para dar mais
abertura e ter alças ajeitadas. Prontinho.
Agora é só ir arrumar treta com os empacotadores de mercado!

“Mentes que Brilham”

Ao dia internacional do Amor (que, estranhamente, ñ é comemorado no Brasil.)

"Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?"
 
Carlos Drummond de Andrade

Primeiros Erros