Caprichosos do Brasil

Por Flá Wonka, do Garotas que Dizem Ni.

Eu penso nisso toda vez que tropeço no buraco da calçada. Penso nisso quando vejo um emaranhado de fios correndo os postes, quando noto o ônibus soltando fumaça negra, quando acho uma ponta de cigarro no jardim do prédio. Penso nisso quando noto um muro precisando ser caiado, penso nisso quando vejo uma revista mal diagramada, penso nisso quando fico sabendo do juiz que vendeu sua honra. E nunca acho resposta. Por que, afinal, temos tanta falta de capricho, hein?

Às vezes queria que minha cabeça fosse portátil, de um tipo que permite desatarraxar, lavar na pia, colocar para secar e só depois voltar com ela pra cima do pescoço. Assim todos os pensamentos ruins correriam pelo ralo. Mas como tenho o modelo padrão de cabeça, fico aqui, com esses achismos todos. E não consigo parar de achar coisas sobre o modo como cuidamos de nós, de tudo em volta, do próximo.

Tem dias em que é só questão de uma passada de tinta ou de uma varrida, sabe? Ora, a fachada do estacionamento aqui perto só precisava mesmo disso: um galão de Coral número 6092, uma limpeza no entorno e um moço que gastasse umas três horas de serviço nisso tudo. Mas o moço tem ordem de ficar ali no guichê, só anotando placas e entregando tíckets. E de cobrar caro que é uma beleza.

Tem dias que tinta e vassoura não bastam. É preciso levantar o membro superior, dirigi-lo até perto do cabelo e encostar com força no crânio. Pôr a mão na consciência de verdade. Como os rapazes do apartamento aqui ao lado, que não entendo por que, insistem em bater a porta de entrada até deixar a maçaneta frouxa ou pisotear toda a escada com botas de barro. Quer dizer, suspeito que o motivo seja “moro aqui de aluguel mesmo, dane-se”. Mas esse motivo não é motivo.

Ou não deveria ser, pelo menos para as pessoas que têm algum capricho no viver. Ah, quiçá todos tivessem… Papéis não voariam da mão direto para a sarjeta, mas sim para algum local apropriado. O entulho não estaria acumulado rente ao muro da escola – por causa de um empreiteiro sem capricho, de um motorista de caminhão sem capricho, por causa de uma diretora sem capricho, por causa de pais e alunos sem qualquer preocupação com capricho.

Muita gente deve apenas “ir levando”, sem se dar conta de que capricho é tão importante. Por causa da aparência? Sim, entre outras coisas, por causa da aparência. Ou uma criança não se sentiria melhor de estudar numa escola bonita? Ou não é mais gostoso trabalhar o dia todo e voltar para uma casa ajeitada? Ou não fica mais divertido passear em um parque bem cuidado, participar de um show organizado e ir a um cinema que cheira bem? Sério, quem gosta de ver filme em uma sala onde aparentemente acabou de haver um baile de chimpanzés bêbados?

É que capricho precisa vir de dentro, sabe, requer muito brio. Bom… talvez nem tanto. Tenho certeza que, mirando bem, a maioria dos seres humanos conseguiria fazer xixi dentro do vaso sanitário. E depois colocar o papel no cesto. E depois conferir se ficou tudo em ordem para o próximo usuário. Em geral, porém, banheiro público tem o aspecto de uma ante-sala do inferno – no dia que o Capeta dispensou a faxineira, claro.

Falta de capricho não deixa ninguém mais rico, mas deixa tudo mais triste. Não posso nem dizer a decepção que sinto com lojista que faz vitrine horrorosa, com editora que lança publicações mal-acabadas, com rede de televisão que coloca porcaria no ar. Pensam que estão economizando. E, na maioria das vezes, acham que assim está mais que bom, porque o povão não liga. Mania de achar que, quando é produto para gente humilde, pode ser ruim que passa… Não devia passar. Nós não devíamos deixar passar.

Pinte uma janela, faça um jardinzinho. Doe uns pertences, conserte aquela luminária, reclame algo com a prefeitura. Passe um papel na pia do banheiro do escritório, prepare uma fornada de biscoitos, vá a pé, telefone pro SAC, escreva uma carta para o jornal, escreva um jornal. Faça além do que pediram, dê banho no gato, sonhe com dias melhores. Capriche! Nós merecemos.

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